“Oi, eu sou o Goku!”, “Eu sou Bear Grylls…”. Com certeza ao ler estas falas você irá se lembrar imediatamente da voz por trás delas, neste Na Cama com as Nerds você vai conhecer um pouco mais sobre o dono dessa voz, Wendel Bezerra, um dos maiores dubladores do Brasil!
Responsável pela dublagem de personagens épicos como o Goku, Bears Grylls, Bob Esponja, Sam (Senhor dos Anéis), Jackie Chan e muitos e muitos outros que fizeram e fazem parte da vida de muitos nerds, que já conseguem identificar facilmente a sua voz.
Nascido em São Paulo no dia 18 de junho de 1974, desde pequeno atua no ramo da dublagem, interpretando grandes papéis ao longo da sua carreira. Além de ser um respeitado dublador e ator, Wendel Bezerra também trabalha como diretor de séries e animações como Stargate, Digimon Data Squad, Zake e Luther e muitos outros. A seguir você conhecerá um pouco mais sobre ele, sua carreira e história, acomode-se na nuvem voadora mais próxima e prepare-se para esta super entrevista!
Nerds de Vestido – Nós fãs temos uma grande curiosidade de saber sobre sua carreira, o início de tudo, como começou no mundo da dublagem e como foram suas primeiras experiências na profissão, conte-nos um pouco sobre esta incrível trajetória.
Wendel Bezerra – Comecei no teatro aos 4 anos de idade como filho de Bibi Ferreira no espetáculo “A Gota D’água”, interpretei “Tistu, o menino do polegar verde” aos 6 anos e segui carreira participando de outras peças, novelas, comerciais e aos 8 anos fiz teste na Álamo e Bks para dublagem. Fui bem nos testes e não parei mais de dublar!
N.V. – Qual foi o personagem que você mais gostou de dublar ou que mais te marcou? Por quê?
W.B. – Vários foram marcantes! Jamie Lawson de “Super Vicky”, Wayne Arnold de “Anos Incríveis”, Bud Bundy de “Um amor de Família” (Married with Children), Corey Feldman em “Conta Comigo” (Stand by Me) e “Sem Licença para Dirigir”, Sam de “O Senhor dos Anéis”, Leonardo Di Caprio em “O Homem da Máscara de Ferro”, Keanu Reeves em “Drácula de Bram Stoker”, Edward Norton em “Cartas na Mesa”, Ryan Gosling em “Diário de Uma Paixão”, Ashton Kutcher em “Efeito Borboleta”, Robert Pattinson na saga “Crepúsculo”, Steve de “American Dad”, Gir de “Invasor Zim”, Gunther de “Kick Buttowski”, Voltar da “Liga dos Super Malvados”, Bob Esponja e, é claro, o homem mais poderoso do universo… Goku!
N.V. – Como foi a experiência de dublar séries Tokusatsu?
W.B. – Na maioria das vezes eu era criança ou adolescente. Participei da dublagem de várias séries, destancando Jaspion. Mas fiquei muito feliz com a chance de dublar um herói protagonista, que foi o caso de Ryukendo.
N.V. – Todo personagem tem sua particularidade, uma voz um pouco diferente, uma leve mudança de timbre ou algo assim, como você faz para conseguir encaixar o tom certo em cada personagem?
W.B. – A dublagem depende essencialmente de sensibilidade. Eu não paro muito pra racionalizar sobre a voz ou o timbre de cada personagem. Eu tento me transportar pra dentro da tela e me sentir aquele personagem que estou dublando, seja ator ou desenho. Eu utilizo mais a intuição. Eu deixo me levar pela emoção proposta pela cena, pelo filme e/ou personagem para que a interpretação simplesmente aconteça, flua. Tem que ser um trabalho feito com total concentração, sensibilidade e entrega.
N.V. – Já teve algum personagem que você não gostou de dublar?
W.B. – Hahaha… Vários! Às vezes o filme/desenho é péssimo, o ator é ruim, ou tudo é muito gritado ou fake… Então são trabalhos que não despertam muito prazer. Nesses casos, a gente se apoia mais na técnica e no profissionalismo e tenta fazer o melhor possível. Mas se o original é ruim, não tem como fazer muito milagre e transformar aquilo num filme bom, né?
N.V. – É de conhecimento e de opinião geral que a dublagem de “À Prova de Tudo” é excepcional, como você faz para deixa-la tão realista que nós nem nos damos conta de que ele está sendo dublado?
W.B. – Hehe… Obrigado! Não sei, apesar de não ser capaz de fazer nada do que o Bear faz, eu me identifiquei logo de cara com ele. É um trabalho extremamente difícil de ser dublado! Sempre recebo grandes elogios por causa dele, o que me deixa muito feliz! Acho que é um pouco como já disse. O dublador não pode ficar só tecnicamente encaixando as palavras na boca do personagem. É necessário “vestir” o personagem, entrar na cena. E eu, de fato, me sinto realizando cada aventura que o Bear Grylls inventa. Me sinto enfrentando as situações e, talvez, seja isso que dê veracidade à minha dublagem em “À Prova de Tudo”.
N.V. – Os nerds são grandes fãs de “Senhor dos Anéis”, como foi a experiência de dublar Sam? Houve alguma dificuldade e momento marcante?
W.B. – Poder dublar “Senhor dos Anéis” foi marcante, ter sido escolhido por Peter Jackson foi marcante e ter feito o personagem que mais gosto da série foi marcante! Foi um trabalho que adorei fazer e a maior dificuldade, na verdade, era a responsabilidade que eu carreguei pra dentro do estúdio porque eu sabia da grandeza da obra e de tudo o que ela envolvia em termos de fãs, repercussão e importância. Mas foi um prazer enorme, assim como uma grande honra.
N.V. – O que você mais gosta de dublar: filmes, desenhos animados ou séries? Por quê?
W.B. – Não tenho essa preferência. São prazeres diferentes. Desenhos são mais lúdicos, divertidos e livres para criar e improvisar. Filmes são desafios maiores sob o aspecto de trabalho de ator e de perfeição de sincronismo. E séries são trabalhos mais duradouros onde você passa a conhecer melhor o ator ou personagem e consegue desenvolver um trabalho com maior personalidade e identidade.
N.V. – Como foi dublar o Goku do Drangon Ball Z? O que achou da nova versão remasterizada, a DBZ Kai, em sua opinião, ela continua tão boa quanto a versão clássica mesmo com os cortes, sangues retirados e assim por diante?
W.B. – Goku foi o máximo! Foi um grande presente de Deus pra mim e pra minha carreira. Criei um carinho especial por ele. Foi gostoso poder redublar algumas cenas. Me deu até aquele “friozinho” na barriga, coisa mais comum ao teatro. Não vi a série toda. Somente as cenas em que eu falava e, sinceramente, não me ative aos detalhes e sim às emoções. Porém o fato de saber de algumas trocas de vozes me brochou um pouco. Nada contra os dubladores novos, que respeito e são meus colegas, mas à mudança do conceito que foi dado aos personagens na primeira dublagem que, ao meu ver, estava muito bacana.
N.V. – Como é dublar um personagem tão louco e incomum como o Bob Esponja? Quais são as maiores dificuldades deste trabalho?
W.B. – É maluco, prazeroso, cansativo e muito divertido. Assim como motivo de grande orgulho! As dificuldades são muitas! Variações constantes de interpretação, ritmo alucinante, muitos gritos e agudos, voz difícil de manter, responsabilidade de manter um padrão de alto nível e de, por vezes, ter que cantar. Mas é bom demais!!!
N.V. – Você já passou por alguma situação inusitada por causa da sua voz?
W.B. – Hahaha… Várias! Por conta da internet e matérias de TV, algumas pessoas me conhecem. Então, eventualmente sou abordado em padaria, shoppings, aeroporto… Já fui rodeado por um grupo de garotas num restaurante enquanto almoçava, fiquei acalmando garotas que não conseguiam falar, só chorar… Assediado por crianças em festas ou num momento de descanso em minhas férias… Apreciado por famosos globais… O mais engraçado é que quando essas situações ocorrem, muitas pessoas em volta não fazem a menor ideia de quem eu sou ou do que faço e ficam me olhando com cara de “Meu Deus, quem é esse cara?”… É meio constrangedor, mas é bem engraçado!
N.V. – Qual foi a coisa mais estranha que te pediram para falar com a “voz” de algum personagem?
W.B. – Várias coisas são estranhas, mas “Morra, Seyia, seu viadinho!” já virou um clássico!
N.V. – Há alguns anos a dublagem brasileira vem sendo muito elogiada até mesmo por quem não gostava de materiais dublados, o que você acha que mudou na dublagem nacional que trouxe essa nova legião de admiradores?
W.B. – Nossa! É muita coisa! Parte da dublagem melhorou muito em termos de tradução, qualidade técnica e preciosismo artístico. Os meios de reprodução desses trabalhos também melhoraram (cinemas, canais a cabo…), mas o que eu acredito que tenha sido preponderante é que a hipocrisia perdeu espaço. As pessoas tem assumido mais publicamente que preferem assistir aos filmes dublados. Tanto em casa, como no cinema. Em todas as classes sociais. As pesquisas tem demonstrado isso e os resultados comerciais das distribuidoras e das transmissoras de TV. Aqueles jornalistas pseudo intelectuais que antes detonavam a dublagem, hoje mudaram o discurso ou perderam credibilidade. Isso é bom pra nós dubladores, mas por outro lado, traz mais responsabilidade.
N.V – Muitas pessoas tem o sonho de se tornar dubladores, mas não sabem por onde começar, tem alguma dica para eles?
W.B. – Por não curtir muito a renovação que surge mal e lentamente, junto com meu irmão criei um curso de dublagem. A Universidade de Dublagem! Temos obtidos grandes resultados e satisfações. Já colocamos pessoas com grande potencial no mercado, satisfatoriamente. Crianças, mulheres, jovens e adultos. Estamos muito felizes e os alunos saem daqui mais felizes ainda.
N.V. – Para finalizar, poderia deixar uma mensagem para seus fãs?
W.B. – Sou um cara muito feliz e realizado em minha profissão e não me canso de buscar novas metas e novos desafios. Isso sempre foi da minha natureza, mas me renovo a cada dia, cresci e me tornei esse profissional e essa pessoa, essencialmente, graças ao carinho, incentivo e apoio de vocês. Suas palavras, dicas, emoções, reclamações e gestos de carinho fizeram com que eu tivesse um grande respeito e admiração por todos que através de eventos, palestras, aulas e twitter (@Wendel_Bezerra), de alguma forma, falam comigo. Muito obrigado por tudo! Um grande beijo “esponjoso” do Goku!

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